1 de janeiro de 2018

Nada se cria, nada se perde: tudo se transforma!

Conheci pessoalmente Alice Queirós e Rogério Barbosa há menos de dois anos, numa tertúlia de poesia na Praia da Granja. Tinha escrito há poucos dias o texto abaixo, tomando como mote o título de um poema seu, que acho extraordinariamente feliz. Pouco convivemos, tão curto foi o tempo e tão longo foi o caminho. Mas desde o início que não consigo separar o casal de namorados adolescentes e cúmplices, simples, despretensiosos, humanos. De facto “não é por acaso que existe um espaço entre dois braços”. E que continuará a existir, apesar da interrupção.

Hoje, como tributo simples a esse conhecimento e a essa amizade, republico o texto. Com uma orquídea para a Alice e um abraço fraterno para o Rogério.




Não, não é por acaso que existe um espaço entre dois braços. Não, não é por acaso que os olhos verdes dos gatos se aconchegam ao conforto morno dos regaços. Não, não é por acaso que o tempo e a vida se fazem e desfazem em tantos passos e cansaços. Não, não é por acaso que as curvas da estrada e do destino nos obrigam a frequentes paragens e compassos. Não é ainda por acaso que uma palavra solta, um suspiro ou um olhar mais longo nos causam embaraços.


Não é por acaso que tantos momentos passam tão depressa que não dão tempo para que no desenho se risquem todos os traços. Os traços rigorosos e perfeitos de um desenho de Cruzeiro Seixas, o vigor artístico dos braços e o rigor milimétrico dos espaços. Não, não é por acaso. Não, não é por acaso que a madrugada nos pode tirar o sono e fazer-nos os sonhos e a lua cheia em pedaços. Não é por acaso que muitas vezes nos apertam garrotes à garganta e os sentimos com a leveza meiga que aperta os laços. Porque fica sempre a imensa longitude do espaço entre dois braços. Para acolher todo o infinito que somos de ternura e dar o aperto necessário a todos os abraços.

24 de dezembro de 2017

Em dia de consoada

Em dia de consoada
As mãos cheias de nada
O olhar vazio
Como um rio
Que corre para o mar
Sem um curto calor que venha para ficar
E deixe um aroma a poesia
Toda a noite até ser dia
A celebrar a magra fome
De quem nem hoje come
Mesmo assim sendo feliz
E fazendo o que nem eu fiz
Que me sentei ao canto
Deixando que dos olhos me caísse o pranto
Talvez lá mais para a noite
Haja quem se afoite
E devagar devagarinho
Meta os pés ao caminho
E só pare quando chegar
Ao abrigo onde possa pernoitar
Onde o frio
Saiba ao calor do estio
E não sobre nenhuma rua
Seja minha ou seja tua
A madrugada será nossa
Assim nós queiramos e ela possa

E o Deus menino?
São histórias e partidas do destino!


18 de outubro de 2017

106 anos, minha Mãe

Passam hoje 106 anos sobre a data do teu nascimento. Celebras hoje o teu aniversário comigo, mesmo que silenciosamente te tenhas ausentado há dez anos.


Gostaria de fazer as coisas como sempre fiz: de surpresa, sem aviso prévio. Ter combinado tudo sem te dizer nada e, a meio da manhã, aparecer-te para almoçar contigo. Levando comigo um ramo de flores e um bolo de anos, ignorando que, neste dia, desafiasses a diabetes com que conviveste largos anos. Afinal um dia não são dias e nunca deixaste de ser um bocado lambareira, apesar dela.


Assim quero deixar este marco anual, para assinalar a data. Como se dobrasse o Cabo da Boa Esperança e, com isso, o caminho do futuro se nos abrisse por diante. Porque nunca deixei de o percorrer e de acreditar que, aqui e agora, sou mais do que eu. Sou eu e a tua presença constante, e vamos juntos!

3 de outubro de 2017

De saída está Setembro

De saída está Setembro, um tardio Agosto de manhãs frias, que ainda sabe a sal e a sol, a última fronteira do solstício. Que nova ainda é a criação das estações e dos hemisférios, com o Outono por construir, suspensa a queda da folha à espera do calendário e das chuvas corridas a vento de Novembro. Até lá vai o vinho ferver no silêncio das cubas, chorando a saudade doce de ser mosto sob os pés descalços, sentindo os gumes redondos da grainha.


Entre o nevoeiro da manhã tenho as mãos cheias do teu sorriso fresco, o perfume morno do teu pescoço penetrando-me nas narinas. Que areia fina desponta na seda dos teus cabelos, que sol se levanta preguiçosamente baixo, mesmo que sempre a oriente. Que mês se desenha, fulgurante, nas chamas dos teus lábios, que rio de águas quentes nasce no sítio tranquilo dos teus olhos. Que consolo é ter a praia de Outubro pela frente, a espuma rasa das ondas banhando-me os pés descalços!

9 de setembro de 2017

Hoje, Mãe!

Dez anos passados. E dez anos não são uma longa ausência, são a ausência inteira. São a perda absoluta. Não foi uma fracção de mim que se perdeu. Fui eu todo, fui eu inteiro. Restou de mim apenas o sentido da desesperança, sem mais esperança nenhuma. O meu universo reduziu-se a uma palavra e essa palavra é deserto. Uma palavra sem sentido, porque deserto não precisa nem de sentido nem de palavra. Não há nenhum rio que corra, nenhuma sombra que abrigue, nenhuma pedra que escute. Deserto, no sentido mais vazio e deserto do termo. A expressão mais simples de tudo o que é excessivo e que é completo. Sem nada, sem nenhuma casa, sem nenhum barco. E é à volta dele que vou esquartejando o tempo extremo, de olhos vazios e passos quietos. Com o outono a espreitar ao fundo da semana, como se houvesse uma esquina para dobrar e um sol para nascer. O choro sempre pronto, lento e redondo, como se fosse lua cheia. Sem um sorriso, uma alegria, um voo de pássaro. Um sentido simples.


Depois de ti, sem mais sentido. Nenhum!