3 de outubro de 2017

De saída está Setembro

De saída está Setembro, um tardio Agosto de manhãs frias, que ainda sabe a sal e a sol, a última fronteira do solstício. Que nova ainda é a criação das estações e dos hemisférios, com o Outono por construir, suspensa a queda da folha à espera do calendário e das chuvas corridas a vento de Novembro. Até lá vai o vinho ferver no silêncio das cubas, chorando a saudade doce de ser mosto sob os pés descalços, sentindo os gumes redondos da grainha.


Entre o nevoeiro da manhã tenho as mãos cheias do teu sorriso fresco, o perfume morno do teu pescoço penetrando-me nas narinas. Que areia fina desponta na seda dos teus cabelos, que sol se levanta preguiçosamente baixo, mesmo que sempre a oriente. Que mês se desenha, fulgurante, nas chamas dos teus lábios, que rio de águas quentes nasce no sítio tranquilo dos teus olhos. Que consolo é ter a praia de Outubro pela frente, a espuma rasa das ondas banhando-me os pés descalços!

9 de setembro de 2017

Hoje, Mãe!

Dez anos passados. E dez anos não são uma longa ausência, são a ausência inteira. São a perda absoluta. Não foi uma fracção de mim que se perdeu. Fui eu todo, fui eu inteiro. Restou de mim apenas o sentido da desesperança, sem mais esperança nenhuma. O meu universo reduziu-se a uma palavra e essa palavra é deserto. Uma palavra sem sentido, porque deserto não precisa nem de sentido nem de palavra. Não há nenhum rio que corra, nenhuma sombra que abrigue, nenhuma pedra que escute. Deserto, no sentido mais vazio e deserto do termo. A expressão mais simples de tudo o que é excessivo e que é completo. Sem nada, sem nenhuma casa, sem nenhum barco. E é à volta dele que vou esquartejando o tempo extremo, de olhos vazios e passos quietos. Com o outono a espreitar ao fundo da semana, como se houvesse uma esquina para dobrar e um sol para nascer. O choro sempre pronto, lento e redondo, como se fosse lua cheia. Sem um sorriso, uma alegria, um voo de pássaro. Um sentido simples.


Depois de ti, sem mais sentido. Nenhum!


23 de agosto de 2017

A imbecilidade estúpida dos homens e das mulheres

Depois de seis anos sem gravar, Chico Buarque tem marcado para o dia 25 deste mês, depois de amanhã, o lançamento do seu novo álbum “Caravanas”, em que se inclui a faixa “Tua Cantiga”. Esta foi disponibilizada no Youtube há três semanas onde, no preciso momento em que escrevo, tem já quase 884.000 visualizações.

Para mim, que não sei uma nota de música, e que admiro Chico Buarque desde “A Banda”, a canção é muito bonita e traz-nos a maturidade de um homem polivalente, já com mais de setenta anos de idade. A sua carreira, - quer como compositor, intérprete ou escritor – tem sido uma carreira de causas. E começou por sê-lo exactamente com “A Banda”, quando tinha verdes 18 anos, e recusou ser vencedor do Festival de Música Popular Brasileira, exigindo que o júri tratasse em plano de igualdade consigo, a canção concorrente, “A Disparada”, de Geraldo Vandré.

De permeio, foi politicamente perseguido pela ditadura brasileira – como o foram Caetano Veloso e Gilberto Gil, por exemplo – facto que o levou a viver exilado, em Itália. Tem um percurso que não carece nem de comentários nem de adjectivos. Agora, a faixa “Tua Cantiga” leva à atitude estúpida de homens e de mulheres – para salvaguarda da igualdade de géneros! – e imbecil, novamente de homens e de mulheres – ainda para salvaguarda da igualdade de géneros!

Apenas porque, não faço ideia que suprema inteligência – de homem ou de mulher! – considerou como promoção machista as seguintes linhas, sem consideração sequer pelo contexto em que se inserem:

Quando teu coração suplicar
Ou quando teu capricho exigir
Largo mulher e filhos
E de joelhos
Vou te seguir

21 de agosto de 2017

O fascínio do mar

O fascínio do mar. A dimensão a perder de vista. A sedução do desconhecido. O que está para além dos barcos e da distância. A autoridade com que reduz os continentes ao tamanho de ilhas. O temor que inspira, a atracção fatal que desperta. A passadeira de espuma branca que estende pelo areal. A fúria com que inunda o convés, desgasta rochedos, rejeita destroços. As ondas dóceis, como gotas frescas na palma da mão, lágrimas de ternura nos olhos das crianças. A cor, as cores com que se veste, azuis ou verdes, sempre sabendo a cristais de sal. A profundidade a que guarda os seus segredos, as cavernas onde acautela a sua intimidade. A imponência das vagas, o rugido tropical das calemas, o domínio das marés. O olhar indefeso das aves marinhas, pousadas no alto escarpado dos promontórios. O espanto de quem o vê pela primeira vez, vindo de longe. A paixão absoluta. O amor com que se lhe entrega a vida, a saudade com que se lhe morre nos braços.


13 de agosto de 2017

Tudo à minha volta

Tudo à minha volta persiste em dizer-me que hoje é domingo. O calendário pendurado na parede da cozinha, o relógio sobre o tampo da mesinha de cabeceira, o sol a entrar pela janela do quarto e a espalhar-se pelo soalho. As ruas desertas de movimento, os bancos de jardim descansando à sombra das árvores, o maior número de devotos a caminho da missa, para a remissão dos pecados. E, suspensa no meio de todos os dias, a tua imagem e a tua permanente ausência de tudo, com quilómetros e anos de permeio, a fazerem por separar-nos.



Sei, felizmente, que valem mais as convicções do que as palavras. Mesmo quando chegam as noites longas de inverno, sabes que é assim. Como sabes que essas certezas me levaram a não ter tido nada na vida e a não me fazer diferença nenhuma que seja domingo, nem a esperar nada dele. Mesmo que seja de noite, ou que ainda seja de dia. Ou que seja Março, que é apenas mais um mês, com que se inicia a primavera. Que também não faz diferença nenhuma. É como se ainda fosse inverno, ou já fosse verão, e o sol já tivesse esbarrado no trópico de Câncer. E eu me mantivesse aqui, imóvel, no mesmo lugar, sem nenhum calendário pendurado na parede da cozinha. À espera de coisa nenhuma!