27 de janeiro de 2004

O surrealismo do país real e justo

A Dra Celeste Cardona é, no momento em que redigimos este apontamento, a ministra da justiça deste país de Pachecos: o Luís, o José e os outros. Personalidade destacada na hierarquia do partido do Dr Portas e do Estado. O que fez até agora como ministra, não sabemos. O que antes tinha feito como deputada, também não sabemos. Como todos os políticos de profissão, que nunca souberam fazer nada, pela-se por ser apanhada pelas Câmaras: ajeita o cabelo, aperta o casaco, esboça trejeitos de pose. Mesmo depois de completadas estas notas, vai continuar a ser ministra. Em Portugal está sempre tudo bem e essa é uma das particularidades que faz de nós todos indefectíveis portugueses. Tivesséssemos nascido espanhois ou lituanos, devidamente portadores de passaporte e tudo, até recenseados nos serviços consulares da embaixada, já teríamos requerido a nacionalidade portuguesa. Estaríamos à espera porque este é o país em que se espera sempre e em que se espera por tudo. E, como tu cantas Chico, quem espera nunca alcança!

Espera-se tudo e tanto que já ninguém reage quando o Estado se rouba a si próprio e vai a correr apresentar a participação ao seguro, a ver se arrecada a indemnização. Como um vigarista vulgar, sem o génio empreendedor do Sr Alves dos Reis. A quem todos os governos ainda devem a singela homenagem de uma placa toponímica, à esquina do edifífio do ministério das finanças. Durante o ano passado o ministério da justiça contratou a título precário algumas centenas de trabalhadores. Fê-lo ao abrigo das leis, portarias e demais regras que orientam o ministério do Dr Bagão Félix. Se a relação foi precária foi apenas porque é assim que melhor se acautelam os legítimos direitos dos trabalhadores e se lhes prepara o radioso futuro. Deles, dos filhos e muito provavelmente dos netos.

Soube-se agora que o ministério da justiça fez a todos esses trabalhadores, como a legislação em vigor obriga, os descontos devidos à segurança social. Depois, com a naturalidade do ministro David Justino e a boca desdentada à custa da mentira, esqueceu-se de fazer a respectiva entrega, à semelhança do que exige aos privados. Pergunta-se: mas não é tudo Estado, a justiça e o trabalho? Os descontos já estavam do lado de lá, não era? Era, se nos referíssemos às contribuições devidas pelas entidades patronais. Mas estão em causa também, e principalmente, os descontos feitos aos vencimentos dos trabalhadores. O ministério da justiça, como um tesoureiro sem face e sem nome, arrecadou os descontos e depois, ao fim do dia, perdeu-se - por esquecimento, naturalmente! - no regresso a casa e foi gastando por conta. Do Cais do Sodré às docas. A ministra vai repreendê-lo e dizer-lhe que teria sido melhor pedir um adiantamento por conta do ordenado. E vai solicitar ao seu colega do trabalho que agora autorize o pagamento em suaves prestações, sem pressas e sem juros. Pretensão que muito justamente será deferida, mesmo que venha a demorar algum tempo.

Ambos vão continuar a ser ministros, para desgraça do país e para enriquecimento dos currículos. O Zé vai continuar a limitar-se ao comentário inconsequente: coisa de políticos, são todos iguais!

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