12 de maio de 2016

Regressar à nascente

Regressar à nascente, como um rio cansado com o mar e com as pontes. Desistir de barcos e de vagas, barrigas grávidas de morte e de petróleo, gumes afiados de pedras e destroços. Subir afluentes, escalar penhascos, abandonar-me de todo à paisagem e ao voo atento e alto das aves de rapina, soberania única sobre o desfiladeiro que encosta o azul do céu aos ventos agrestes que o açoitam. Desenhar-lhe de volta as curvas apertadas do percurso, acariciar-lhe as arestas vivas e ameaçadoras do granito, como se fossem seios erectos brilhando ao sol, esculpidos nos cumes das montanhas.


Deixar o meu cansaço vertido em todos os anos perfumados do teu corpo, o aroma divino da flor de tília, oásis mágico no meio da imensidão das areias que preenchem a inclemência do deserto. Nem rochedos, nem pirâmides perturbando a monotonia quieta de milénios, o Nilo estendendo-se de polo a polo, como se não houvesse sol e o tempo fosse sempre de lua cheia. As noites serenas de setembro, as vindimas feitas, o mosto repousando no bojo das pipas, a cor dourada do outono dando contornos aos socalcos e à madrugada. E tu por perto, apenas um véu de tule dando forma ao silêncio das estrelas.

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