6 de julho de 2017

Entrei no Alentejo por Santiago do Cacém

Entrei no Alentejo por Santiago do Cacém, como se não tivesse percorrido caminho nenhum para lá chegar. Sem saber como, dei por mim no largo em frente ao edifício da Câmara, onde alguns velhos se acolhiam do sol, sentados em bancos pintados de vermelho. Soube logo, como se o momento fosse eterno, que aquele largo era o centro do mundo que eu conhecia há dezenas de anos, das minhas conversas solitárias com a escrita de Manuel da Fonseca e os carrascais com que emoldurava as suas palavras. Não sei que época era, mas ao longo da avenida havia laranjas maduras pendendo das árvores e um aroma virgem e íntimo a flores e laranjeira. Nem espinhos havia na canícula que decorava a planície.


Atirei-me monte acima, à procura da igreja e do castelo, pintados de branco e cor de tijolo e que, no alto, brilhavam ao sol do meio-dia. Em campa rasa, Manuel da Fonseca mora no castelo, onde o cemitério parece ter nascido com ele. Procurei-o e perfilei-me à sua frente, quieto e calado, como se o venerasse ou lhe pudesse perturbar o descanso. Para lhe dizer que um outro homem de excepção, há muitos anos atrás, me pusera sob os olhos “O fogo e as cinzas”. Mas que, apesar disso é, ainda hoje, a “Aldeia Nova” e o “A Campaniça” que me tolhem todos os movimentos e me libertam a emoção das lágrimas que me correm pela face.

Que palavras mais belas e mais trágicas pode um homem escrever, depois de ter escrito estas?

“Valgato é terra ruim.
Fica no fundo de um córrego, cercada de carrascais e sobreiros descarnados. O mais é terra amarela, nua até perder de vista. Não há searas em volta. Há a charneca sem fim, que se alarga para todo o resto do mundo. E, no meio do descampado, no fundo do vale tolhido de solidão, fica a aldeia de Valgato debaixo de um céu parado.
Valgato é uma terra triste.”

[Início do conto A Campaniça, in Aldeia Nova, de Manuel da Fonseca]

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